O cérebro poda conexões. Mas quem decide o que permanece?
Entre a adolescência e a vida adulta, alguma coisa dentro de nós começa a desaparecer, enquanto outra começa, lentamente, a escolher quem ser.
PSICOLOGIA
Andréa Feijó Psicóloga Clínica / Flávio Sousa Psicólogo Clínico
8/11/20267 min ler
Existe uma idade em que ainda acreditamos que podemos ser qualquer coisa. Não porque tenhamos descoberto quem somos, mas justamente porque ainda não descobrimos.
Há algo de extraordinariamente aberto na adolescência. Uma profissão pode ser qualquer profissão. Um grupo pode ser qualquer grupo. Uma cidade pode ser qualquer cidade. Podemos imaginar dezenas de futuros para nós mesmos e, por alguns instantes, acreditar que todos continuam disponíveis.
Então alguma coisa começa a mudar.
Não acontece de uma vez. Não há um dia em que acordamos adultos. Há apenas uma sequência quase imperceptível de escolhas, perdas, descobertas, experiências e renúncias. E, enquanto isso acontece, o cérebro também está mudando.
Durante o desenvolvimento, o cérebro produz uma quantidade impressionante de conexões sinápticas. É como se, no começo, houvesse um excesso de possibilidades: muitos caminhos, muitas alternativas. Depois, progressivamente, algumas conexões são fortalecidas enquanto outras são enfraquecidas ou eliminadas. Esse processo é conhecido como poda sináptica, ou poda neural.
A palavra pode causar uma impressão estranha. Podar parece destruir. Mas uma árvore não é destruída quando seus galhos são podados. Ela é, em determinadas circunstâncias, organizada. A poda não existe simplesmente para retirar, mas para favorecer aquilo que permanece.
O cérebro parece fazer algo semelhante durante seu desenvolvimento: reorganiza sua arquitetura para que determinadas redes se tornem mais eficientes e especializadas.
E talvez exista algo profundamente humano escondido nessa ideia.
Porque também precisamos aprender a podar nossa existência.
Quando somos crianças, podemos imaginar quase tudo. Quando somos adolescentes, começamos a experimentar. E, quando nos aproximamos da vida adulta, descobrimos uma coisa que ninguém consegue nos ensinar completamente: escolher é perder.
Escolher uma profissão significa não seguir inúmeras outras. Escolher uma relação significa deixar de viver outras relações possíveis. Escolher uma cidade significa não morar em todas as outras. Escolher um modo de vida significa abandonar outros modos de vida que também poderiam ter sido nossos.
A liberdade revela, então, seu lado menos confortável.
Ser livre não significa poder viver todas as possibilidades. Significa estar diante delas e precisar escolher.
É por isso que amadurecer pode ser tão angustiante. Durante algum tempo, queremos a liberdade de ter todas as portas abertas. Mas uma existência precisa, em algum momento, atravessar uma delas.
Talvez seja isso que torna a adolescência tão paradoxal.
O adolescente pode querer independência e, ao mesmo tempo, precisar da aprovação dos outros. Pode compreender as consequências de uma decisão e ainda assim assumir um risco. Pode desejar profundamente saber quem é e, simultaneamente, experimentar versões diferentes de si mesmo.
De fora, parece contradição.
De dentro, talvez seja apenas experiência.
É uma pessoa tentando existir enquanto ainda descobre as possibilidades da própria existência.
A neurociência ajuda a compreender parte desse processo. Durante a adolescência e o início da vida adulta, diferentes sistemas cerebrais continuam se reorganizando, incluindo circuitos relacionados à recompensa, à emoção, à sociabilidade e ao controle executivo.
Mas existe uma diferença entre explicar o que acontece no cérebro e compreender como é viver isso.
Uma pessoa não chega a uma sessão de psicoterapia dizendo: “Meu córtex pré-frontal ainda está amadurecendo.”
Ela diz: “Eu não sei o que fazer da minha vida.”
Ou: “Tenho medo de escolher errado.”
Ou simplesmente: “Parece que todo mundo está vivendo e eu ainda estou tentando descobrir quem sou.”
Essas frases não são apenas descrições de um cérebro em desenvolvimento. São descrições de uma experiência.
E experiência não é uma informação que simplesmente possuímos. É aquilo que vivemos, sentimos, interpretamos e fazemos com o que nos acontece.
Por isso, talvez seja insuficiente dizer que o adolescente ainda não possui um cérebro completamente maduro. Talvez seja mais interessante perguntar:
O que significa para uma pessoa viver enquanto ainda está se tornando?
Existe uma ideia bastante difundida de que, em algum lugar dentro de nós, existe uma identidade verdadeira esperando para ser encontrada. Como se houvesse um “eu verdadeiro” escondido e viver fosse apenas descobri-lo.
Mas a existência humana parece mais complicada.
Nós também nos tornamos aquilo que fazemos. Aquilo que escolhemos. Aquilo que recusamos. Aquilo a que dedicamos nosso tempo. As pessoas que permitimos que nos transformem. Os projetos que assumimos. As experiências que decidimos levar a sério.
Talvez não exista uma resposta definitiva para a pergunta “Quem sou eu?”.
Talvez exista uma pergunta mais difícil:
“O que estou fazendo de mim mesmo?”
A primeira procura uma identidade.
A segunda exige uma existência.
E é aqui que a poda ganha outro significado.
O cérebro adolescente não está simplesmente perdendo conexões. Está refinando sua organização. Algo semelhante pode acontecer com nossas possibilidades.
Não precisamos preservar todas elas.
Algumas pertencem a quem fomos. Outras pertencem ao que imaginávamos ser. Algumas foram construídas para satisfazer expectativas que nem sequer eram nossas. Algumas simplesmente perderam o sentido.
Há versões de nós que precisam ser deixadas para trás.
Não porque fossem falsas, mas porque já não correspondem àquilo que estamos nos tornando.
Existe uma espécie de luto nisso: o luto por profissões que não teremos, relações que não aconteceram, cidades que não conhecemos, pessoas que poderíamos ter sido, vidas que continuarão existindo apenas no campo das possibilidades.
Essa é uma das características mais difíceis da liberdade.
Quando escolhemos, não apenas construímos alguma coisa. Também encerramos algumas possibilidades.
Por isso, muitas pessoas permanecem paralisadas diante das grandes decisões. Não necessariamente porque não sabem o que querem. Às vezes sabem. O que não conseguem suportar é aquilo que precisarão perder para ter aquilo que escolheram.
Querem o relacionamento sem abrir mão da liberdade absoluta. Querem uma carreira sem renunciar às outras. Querem estabilidade sem abrir mão da novidade.
Querem todas as possibilidades.
Mas a existência concreta não funciona assim.
Uma vida precisa adquirir forma.
E forma significa limite.
Talvez seja por isso que liberdade e angústia caminhem juntas. Quando ninguém decide por nós, a responsabilidade aparece. E responsabilidade pode ser pesada.
É mais confortável acreditar que existe uma resposta pronta. Uma personalidade pronta. Um destino. Uma fórmula. Um diagnóstico que explique tudo. Uma autoridade que diga o que fazer.
Mas existe um momento em que a vida devolve a pergunta.
E então descobrimos que talvez não precisemos saber exatamente quem somos para começar a escolher.
Precisamos apenas assumir que cada escolha participa da construção de quem estamos nos tornando.
É uma diferença pequena na linguagem.
Mas enorme na existência.
Talvez, por isso, a pergunta “o que eu quero da vida?” seja algumas vezes insuficiente. Ela coloca toda a responsabilidade sobre o desejo, como se a vida devesse primeiro nos dizer aquilo que queremos e somente depois pudéssemos começar a viver.
Mas nem sempre funciona assim.
Às vezes o sentido aparece no próprio encontro com aquilo que fazemos: no trabalho que assumimos, na pessoa que encontramos, na responsabilidade que aceitamos, na dificuldade que decidimos atravessar, naquilo que percebemos que merece nossa dedicação.
A vida não é apenas aquilo que desejamos dela.
É também aquilo que, em determinado momento, nos convoca a responder.
Talvez a pergunta não seja apenas:
“O que eu espero da vida?”
Mas:
“O que a vida está me perguntando agora?”
Talvez seja exagerado dizer que a adolescência termina quando o cérebro termina de amadurecer. A vida não funciona por compartimentos tão precisos.
Existem adultos biologicamente maduros que permanecem existencialmente perdidos. E existem jovens que, diante de determinadas circunstâncias, desenvolvem uma extraordinária capacidade de assumir responsabilidades.
O desenvolvimento cerebral oferece condições. A experiência oferece matéria. Mas nenhuma delas, isoladamente, responde à pergunta sobre o sentido.
É aí que começa uma dimensão propriamente existencial.
Podemos explicar como o cérebro se reorganiza. Mas ainda precisamos perguntar:
Para que uma pessoa quer viver?
Podemos compreender mecanismos de recompensa. Mas ainda precisamos perguntar:
O que vale a pena desejar?
Podemos explicar impulsividade. Mas ainda precisamos perguntar:
O que merece nosso autocontrole?
A neurociência pode explicar muito sobre o funcionamento.
Mas não pode escolher por nós o sentido de uma existência.
Existe uma maturidade silenciosa em aceitar que uma vida sempre será menor do que todas as vidas que poderíamos imaginar.
Não menor em valor.
Menor em possibilidades realizadas.
Não podemos viver todas as histórias.
Precisamos viver uma.
E talvez seja justamente isso que torna uma existência singular.
Uma vida ganha contorno quando algumas possibilidades deixam de ser apenas possíveis e passam a ser vividas. É nesse momento que a existência começa a adquirir densidade, não porque todas as dúvidas desapareceram, mas porque algumas escolhas começaram a permanecer.
Não podemos escolher quais conexões nosso cérebro irá eliminar. Mas podemos participar da seleção daquilo a que dedicaremos nossa existência.
Podemos perguntar quais relações queremos cultivar, quais valores queremos sustentar, quais hábitos queremos fortalecer, quais ambientes nos transformam, quais projetos merecem nosso tempo e quais versões de nós mesmos já não precisam continuar governando nossas escolhas.
Isso não significa controlar completamente quem seremos. A existência nunca é tão previsível.
Significa apenas reconhecer nossa participação nela.
Talvez seja isso que a passagem para a vida adulta realmente nos ensine.
Não que finalmente descobrimos quem somos, mas que começamos a compreender que somos também responsáveis por aquilo que fazemos de nós mesmos.
Há uma beleza estranha em perceber que crescer não significa conservar tudo.
Algumas coisas precisam desaparecer para que outras possam adquirir espaço.
Alguns caminhos precisam ser abandonados. Algumas versões de nós precisam morrer. Algumas possibilidades precisam permanecer apenas como possibilidades.
Não porque a vida esteja nos empobrecendo.
Mas porque uma existência precisa adquirir forma.
O cérebro aprende, ao longo do desenvolvimento, a tornar algumas conexões mais eficientes.
Nós precisamos aprender, ao longo da existência, a tornar algumas escolhas mais significativas.
Talvez amadurecer seja esse movimento:
não ter menos possibilidades, mas aprender quais delas merecem ser vividas.
E talvez a pergunta mais importante da vida adulta não seja:
“Quem eu poderia ter sido?”
Mas:
“Entre tudo aquilo que eu poderia ser, o que merece a minha existência?”
Essa pergunta não possui uma resposta definitiva.
Talvez nunca possua.
Mas há perguntas que não existem para serem encerradas.
Existem para nos colocar em movimento.
E talvez uma delas seja justamente esta:
Que vida está pedindo para ser vivida através de mim?
Há momentos em que é preciso interromper o ruído do mundo para ouvir o que a nossa vida tem a dizer.
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