Fenomenologia-existencial e sofrimento humano: uma proposta contemporânea de regeneração do sentido

Um texto para quem já percebeu que nem todo sofrimento pede cura, alguns exigem compreensão, presença e responsabilidade. Inspirado pelos avanços da ciência e pelos limites incontornáveis da condição humana, este ensaio propõe um mergulho rigoroso e sensível na experiência do sofrimento existencial. Aqui, o sofrimento não é tratado como falha, fraqueza ou mero conjunto de sintomas, mas como uma ruptura profunda na maneira de habitar o mundo, o corpo e o próprio futuro. A partir da fenomenologia-existencial, o texto conduz o leitor por reflexões que atravessam o adoecimento, a irreversibilidade, a perda de projetos e a reconstrução do sentido quando a vida já não pode ser “consertada”. Mais do que apresentar conceitos, ele convida a pensar como o ser humano pode continuar existindo com dignidade quando as promessas de solução se esgotam. Não se trata de eliminar a dor, mas de compreender como o sentido pode ser reconstruído mesmo onde a cura não é possível. Um texto para quem vive o peso de existir, para quem sente que algo se quebrou e ainda assim, intui que a vida não se encerra aí. Uma leitura que não oferece atalhos, mas abre caminhos: de pensamento, de implicação e de responsabilidade pela própria existência.

Por Flávio Sousa

1/23/20264 min ler

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A produção científica contemporânea tem demonstrado crescente interesse por abordagens que não apenas descrevem o sofrimento humano, mas que buscam compreendê-lo em sua estrutura vivida e oferecer respostas clínicas eticamente responsáveis. No campo biomédico, avanços como os da medicina regenerativa exemplificam esse movimento ao propor soluções inovadoras para condições historicamente consideradas irreversíveis. No campo das ciências humanas e da saúde mental, observa-se um esforço análogo no enfrentamento do sofrimento existencial, especialmente em contextos de adoecimento crônico, traumas físicos irreversíveis e rupturas biográficas profundas.

Nesse cenário, a fenomenologia-existencial tem se consolidado como um referencial teórico-clínico relevante, capaz de oferecer uma compreensão rigorosa da experiência subjetiva do sofrimento e de apontar caminhos terapêuticos baseados na reconstrução do sentido da existência.

Fundamentos fenomenológicos do sofrimento existencial

A fenomenologia, inaugurada por Edmund Husserl, propõe a investigação sistemática da experiência tal como ela é vivida, anterior a explicações causais ou reduções naturalistas. Esse enfoque, desenvolvido posteriormente por autores como Martin Heidegger e Maurice Merleau-Ponty, permitiu compreender o sofrimento não apenas como um conjunto de sintomas, mas como uma modificação global do modo de ser-no-mundo.

No contexto do adoecimento grave ou da incapacidade física permanente, estudos fenomenológicos demonstram que o sofrimento emerge, em grande medida, da ruptura da familiaridade com o mundo vivido (Lebenswelt), da alteração da experiência corporal e da descontinuidade dos projetos existenciais. Essa compreensão desloca o foco exclusivo da patologia para a experiência concreta do sujeito, sem negar os dados biomédicos, mas integrando-os a uma análise mais ampla da existência.

Fenomenologia-existencial na prática clínica contemporânea

A aplicação clínica desses fundamentos foi desenvolvida ao longo do século XX por autores como Ludwig Binswanger, Medard Boss e, posteriormente, Irvin Yalom e Ernesto Spinelli. Esses autores defendem que a psicoterapia existencial não visa à eliminação do sofrimento em si, mas à transformação da relação do sujeito com sua própria condição existencial.

Pesquisas qualitativas e quantitativas recentes indicam que intervenções baseadas em abordagens fenomenológico-existenciais contribuem significativamente para a redução do chamado sofrimento existencial, conceito amplamente utilizado na literatura em cuidados paliativos, reabilitação e psicologia da saúde. Esse tipo de sofrimento é caracterizado por sentimentos persistentes de perda de sentido, desesperança, ruptura identitária e dificuldade de projetar o futuro, independentemente da intensidade dos sintomas físicos.

Meta-análises publicadas na última década apontam que terapias existenciais apresentam efeitos clínicos comparáveis a outras abordagens psicoterapêuticas reconhecidas, especialmente em populações que enfrentam limitações irreversíveis, como pacientes com lesão medular, doenças neurodegenerativas ou câncer avançado.

Reconstrução do sentido como eixo terapêutico

Um dos aportes centrais da fenomenologia-existencial é a noção de que o sentido da vida não é um dado fixo, mas um processo dinâmico, historicamente situado e relacional. Inspirada, entre outros, pela logoterapia de Viktor Frankl, essa perspectiva sustenta que o sofrimento pode ser transformado quando o indivíduo é capaz de reinscrever sua experiência em um horizonte de significado, mesmo diante de condições objetivas adversas.

Estudos empíricos conduzidos em contextos hospitalares e ambulatoriais demonstram que intervenções focadas na reconstrução do sentido estão associadas a:

  • Redução de índices de desesperança e ideação suicida;

  • Melhora na percepção de qualidade de vida;

  • Maior adesão a tratamentos médicos e programas de reabilitação;

  • Diminuição do sofrimento existencial mensurado por escalas validadas.

Esses resultados não dependem da reversibilidade da condição física, o que reforça a especificidade do campo existencial em relação às abordagens estritamente biomédicas.

Considerações éticas e metodológicas

Do ponto de vista ético, a pesquisa e a prática clínica em fenomenologia-existencial seguem princípios fundamentais amplamente reconhecidos por comitês de ética em pesquisa: respeito à dignidade da pessoa, preservação da autonomia, confidencialidade e não instrumentalização da experiência subjetiva. Estudos de casos clínicos, por exemplo, publicados nesse campo utilizam, de forma predominante, métodos qualitativos rigorosos, relatos clínicos anonimizados e protocolos de consentimento informado, conforme diretrizes internacionais.

Fenomenologia-existencial como resposta inovadora ao sofrimento humano

Assim como a medicina regenerativa propõe a criação de ambientes biológicos favoráveis à reconstrução de funções perdidas, a fenomenologia-existencial propõe a criação de espaços clínicos e terapêuticos nos quais o sentido possa ser reconstruído. Trata-se de uma resposta inovadora ao sofrimento humano porque não promete a eliminação da dor, mas oferece condições concretas para que o sujeito volte a habitar o mundo de forma significativa.

Dessa maneira, a fenomenologia-existencial se afirma, no cenário científico contemporâneo, não apenas como uma tradição filosófica, mas como uma abordagem clínica eticamente sólida, empiricamente fundamentada e especialmente relevante para o enfrentamento do sofrimento existencial em contextos nos quais a cura biomédica não é possível.

E, para aqueles que percebem que essas questões não se esgotam na leitura, a análise permanece como um espaço possível de escuta rigorosa, onde a experiência pode ser lentamente descrita, compreendida e assumida, no tempo próprio de cada existência.